Verão sem homens

verão sem homens

É uma história de choques, encontros e desencontros na vida de uma mulher de 55 anos (Mia), com uma filha adulta (Daisy), que subitamente vê a sua vida desmembrada devido a uma relação extra-conjugal do homem com quem vive há 30 anos (Boris). “A banalidade da história – o facto de ser repetida todos os dias, ad nauseum, por homens que descobrem, de repente ou a pouco e pouco, que o que É não TEM DE SER e então tomam medidas para se desembaraçarem das envelhecidas mulheres que cuidaram deles e dos filhos deles durante anos – não atenua a infelicidade, o ciúme e a humilhação que se abatem sobre as que foram deixadas para trás. Mulheres desprezadas.”

Mia tem um acesso psicótico temporário, tendo de ficar internada num hospital psiquiátrico. ” O meu problema era que o interior tocara o exterior. Depois de me desfazer aos pedaços, tinha perdido aquela decidida confiança nas engrenagens da minha própria mente, a compreensão, que me chegara algures perto do final da casa dos 40, de que podia ser ignorada mas era mais inteligente do que a maior parte das pessoas, que a leitura maciça transformara o meu cérebro numa máquina sintética capaz de usar filosofia e ciência e literatura no mesmo fôlego”.

Decide depois visitar a sua mãe, que vive num lar de idosos perto da sua terra natal, e passar o Verão nesse recanto pacífico. Aí, o contacto com mulheres que já viveram muito ( “Envelhecer é muito bonito. O único problema é que o nosso corpo cai aos pedaços.”) e com jovens adolescentes a quem proporciona um curso de poesia leva-a a uma introspecção profunda, em que vive o confronto  de pessoas exteriores a si ( “É impossível adivinhar uma história enquanto estamos a vivê-la ; é informe ; uma procissão incoerente de palavras e coisas, e sejamos francos : nunca recuperamos o que já foi. A maior parte desaparece.”) e reconhece o desgosto dos outros (“O Boris está provavelmente a sentir-se culpado, não acha?, e preocupado. Diria que confuso, também, e pelo que me disse, a Daisy zangou-se muito com ele, e isso deve ter doído. Não é obviamente uma pessoa que lida bem com o conflito”), comparando-o com o seu (“Gastar as minhas mágoas a mim cabe”).

A conclusão a que chega é constrangedora (“O que é que sabemos das pessoas, na verdade?, pensei.Que raio é que sabemos a respeito de quem quer que seja?), levando-a a uma aproximação aos outros (“Faço questão de tocar nos meus amigos. Uma palmadinha, um abraço. É um problema. Num lugar como este, muita gente não é tocada o suficiente”), por reconhecer que, apesar da mágoa sentida (“Perdoar é uma coisa. Esquecer é outra.”), não se pode fechar sobre si própria (“O silêncio atrai-nos para o mistério do homem. O que é que se passa aí? Porque é que não me dizes? Estás contente ou triste ou zangado? Temos de ter cuidado, muito cuidado contigo. Os teus humores são o nosso tempo, e queremos que seja sempre soalheiro”).

As circunstâncias da vida afectam todos, e é necessário por vezes permitir-nos uma 2ª oportunidade de sermos felizes (“30 anos é muito tempo, e um casamento adquire uma qualidade endogâmica, quase incestuosa, com  complexos ritmos de sentimento, diálogo e associações. Tínhamos chegado a um ponto em que ouvir uma história ou uma anedota num jantar desencadeava simultâneamente o mesmo pensamento na cabeça dos dois, e era apenas uma questão de saber qual de nós o expressava em voz alta. Até as nossa recordações tinham começado a misturar-se”).

É um livro bem escrito, que permite uma multiplicidade de leituras, o que o enriquece.

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